Ante a noite, as luzes do Século - GP Cingapura

No dia 28 de Setembro aconteceu o primeiro GP de Cingapura de fórmula 1. corrida cercada das mais variadas expectativas: é um circuito de rua, o que impõe diferenças de acerto de carros e estilo de pilotagem, seria a prova mais longa e sob maior calor do ano, o que preocupava pelo desgaste físico improvável, seria a primeira corrida no país, ou seja, nenhum dos pilotos conhecia o traçado, então tudo se torna mais nivelado e mais que tudo: seria a primeira corrida noturna da categoria. O chamativo que transformou todas as imagens retiradas do evento em espécies de pistas de uma expedição ao desconhecido. O cenário até que se parecia com vários conhecidos (nesse espaço plano e sem estrangeirismos estéticos que é o mundo global), mas com alguma coisa de diferente. Certamente que se parecia com qualquer metrópole do mundo. Talvez não uma qualquer, mas uma das mais opulentas e prototípicas. Mas não ali. Em Cingapura isso se revestiu de uma certa estranheza. E, é claro, que também não do mesmo jeito. Uma metrópole nova, como novo parece ser aquele mundo e aquele capitalismo dos lados de lá. Mas o que mais interessa é que – nas imagens, em todas as imagens que se retirou do evento, mas em uma em específico, uma derivação panorâmica recorrente nas transmissões dos treinos e corridas do GP, ocorreu um desvio da função habitual dos planos, da gramática decupativa da transmissão esportiva: ali onde se partia do fora pra dentro com função informativa do evento, partiu-se do dentro pro fora com função fascinada (propagandística? Sim, decerto) pra fora do evento.



Em geral, a câmera nas transmissões esportivas se destinam somente ao movimento, ao seguir e acompanhar dos corpos (carros, no caso): a câmera se desloca pelo deslocar do seu objeto. Mas esse deslocar está associado à idéia de uma totalidade: acompanha o deslocar dos corpos (carros) em função de um espaço. O espaço total é a pista e há inúmeros paratextos (gráfico, narração, comentários, etc.) e, principalmente, planos, imagens, que nos restituem à totalidade do espaço onde se dá o evento (pista) continuamente.
Planos como derivações, aéreas, gerais têm como função inserir o corpo no todo, o carro na pista (por esse jogo do espaço e do recorte do corpo no espaço é que poderia “discordar” de Serge Daney que considerava a partida de tênis a transmissão esportiva por excelência e afirmar isso da transmissão de futebol ou de fórmula 1 – corridas em circuito oval são outra coisa. Daney não gostava de futebol – pecado - talvez por isso afirmasse isso. Diria que no jogo do tênis, como no de vôlei, em que se mostram por poucos planos, porque um ponto de vista único dá conta do espaço todo, tudo está no plano e os corpos e o jogo e o futuro – o ponto, a cortada, a devolução, estão já dentro do plano. Planos que contém o futuro, ou seja toda a narrativa, dentro de si são planos extremamente contemporâneos. Partidas de tênis ou de vôlei são transmitidas à moda do cinema contemporâneo, futebol ou fórmula 1 à moda do cinema clássico. como toda prototipia é clássica, o futebol, mais uma vez, vence.) de volta às corridas de automóvel, em tais planos geralmente parte-se do espaço para o carro (zoom), mas em Cingapura ocorreu o inverso.
Pelo poder de atração do exotismo, houve uma pressão de fascínio que levava a câmera (e toda a transmissão: os paratextos todos: estatísticas, gráficos, narração, comentários, etc.) para o lado de fora da pista, para a cidade e o país e mais especificamente, para aquilo que serviria de metonímia do país: a impressionante cordilheira de arranha-céus ao redor do circuito.
A panorâmica abandonava a pista e focava, fascinada, o skyline espinhoso de Cingapura.
Poder de fascínio que foi devidamente guiado e o plano revela o fascínio ocidental, estrangeiro por aquela paisagem, pois o GP foi organizado desde o começo em função do ocidente. Mais especificamente Europa (o fato de ter ocorrido à noite foi exigência da organização da fórmula 1 para que a corrida ocorresse em horário palatável ao fuso europeu: para os europeus verem corrida à tarde, que ela ocorresse de noite em Cingapura). O plano, a panorâmica, surpreendia, mas surpreendia a quem o plano era endereçado: Europeus e ocidentais que ignoravam tal configuração de paisagem.


Poder de fascínio devidamente guiado: os organizadores fizeram do plano (e das imagens em que o GP se transformaria) uma propaganda da opulência megalopólica de Cingapura. Fizeram da ignorância e do desconhecido um espaço de encanto e absurdamento que incitam à adesão: as imagens e a panorâmica não escondem: o ocidente achou aquilo belo, belo demais.
Ao apontar pra fora, o plano (se pode ver isso também nas outras imagens do evento, o espetáculo guiado do fascínio e da grandiloqüência persegue toda tomada do evento) mostrou o retrato do novo rosto da metrópole contemporânea: Asiática e digital, rebrilhante. Não mais o império do concreto e do ferro armado americanos e do século XX. Agora o rebrilho laminado e luminoso das superfícies metálicas e sem atrito: leveza contemporânea e asiática.
Essas imagens marcam um destrono de Nova York como símbolo da metrópole capitalista contemporânea por excelência. O mistério, o desconhecido, a idéia de novo que incita o lançar-se, que conjuga-se mesmo ao espírito empreendedor e rompedor do capital se comunga melhor com as cidades asiáticas. Elas representam ainda um terreno fértil pra construção, elas ainda incitam à imaginação. Elas ainda não foram suficientemente narradas. Nova York já foi filmada demais, fotografada demais, cantada demais. Cada esquina sua parece quintal do mundo. E o mistério, diga-se, é mercadoria das mais valiosas.














Das imagens produzidas sobre o GP, uma das mais intrigantes, das mais eloqüentes é uma produzida de forma amadora (termo que ainda, mas só ainda, faz algum sentido) por um espectador do GP. Parece que com seu celular, o espectador, provavelmente um local, ou seja, alguém para o que aquilo ali, a cidade, as luzes, é coisa corriqueira, conhecida. Diante da inexistência da pressão de fora, ele se dirige somente ao dentro. E diante da ausência da possibilidade de recursos e de linguagem audiovisual que dê conta do espaço (mais câmera, os planos certos pra dar a impressão de continuidade, etc.), ele fica no que tem: a visão da faixa estreita de espaço que tem à sua frente. E ele se perde, porque é tudo muito rápido e tudo o que ele pode fazer é seguir os corpos que passam, mas eles passam rápido demais e ele não tem futuro, sua imagem não aponta pra lugar algum, apenas fica no que lhe passa seja quem for.


Ressalte-se ainda outro uso clínico de outro recurso visual: o direcionamento do olhar pela luz. O circuito foi separado da cidade (embora seja um circuito de rua) pela extrema luminosidade de que teve de se investir (tomadas aéreas justificavam isso) e a iluminação destacadora se estendeu ao fora da pista, fora de campo, fora de quadro, ao se iluminar cuidadosamente os prédios em redor e conservar suas janelas acesas: ante a noite é o novo estágio político e econômico da Ásia – e Cingapura – que se devia destacar.

Blissfuly Yours: Apitchatpong e a arquitetura do nada

Apitchatpong Weerashetakul mistura as cartas. Como quem vai jogar vai jogar o jogo que aprendeu, desconfia e perde. Como o diretor quer que os espectadores que vão vê-lo percam – a si – no jogo, há um ganho. A sensação de perda tem suas conotações topológicas: achar (a si também) equivale a achar um chão. Apitchatpong prefere pôr seus espectadores pra caminhar no vazio. Ao se imiscuir de variados meios de linguagem que fazem com que sorrateiramente (e a Malicia, a leveza com que faz as coisas é sim um ponto importante, por fazer com que realize questionamentos políticos – nesse filme há uma forte abordagem da questão da imigração - e abordagens estéticas experimentalíssimas – seus tempos distendidos, narrativas desencontradas, mistura do kitsch e do cinema de vanguarda europeu – com parcimônia, sem a aridez e a dureza de quem eleva esses questionamentos mais ao intelecto que ao corpo), seus filmes se descolem da legibilidade (que seria o encerramento do sentido num espaço, na idéia de todo), Apitchatpong joga suas imagens e nossos olhos no encontro do nada. e não é permitido voltar de mãos vazias da disputa.












Não se pode aqui ser guiado a traçar uma descrição, sucinta que fosse, da trama ou intriga do filme. Em primeiro lugar, porque ela é tão pouca, tão pequena, tão fugaz, que o prazer (?) que ela proporciona e o jogo de descobertas e encaixes de peças (a construção de um espaço, que seria o da narrativa) deve ser deixado ao espectador; e qualquer coisa que se dissesse aqui incorreria no contrário disso. Em segundo lugar, porque seria provavelmente um erro: tentar retirar do filme algo do qual ele só consegue e deseja fugir (mas ardilosamente, criando seus subterfúgios de fuga, esse um mérito inquestionável de Apitchatpong).
Não que não se possa dizer nada a respeito do filme também. Ao contrário. Em primeiro lugar, há que se notar para uma característica desse cineasta e que constitui uma de suas “marcas” e principais fontes de estranhamento: o jogo, o deslocar dos paratextos que o cinema consagrou e dos quais cada filme se utiliza. Em Apitchatpong, o trabalho de significação começa no título. Mas não nas palavras, no sentido gramatical ou simbólico do titulo, mas o como ele se insere no filme. E assim com tudo: os créditos, as músicas, etc. nada é tratado com inocência e como fora do filme, tudo está dentro. Nesse sentido, as expectativas de que o espectador se nutre não são concluídas, há uma falha naquilo que é esperado (e para o qual fomos socialmente educados), desse deslocamento, surge a sensação de estranheza.
Sensação que permeia toda visada das projeções dos filmes do tailandês. Não há como não localizar o estranhamento: muitas vezes é estranhamento de ocidental.












Deve-se notar também o jogo com os recursos denotadores de uma narrativa da linguagem de cinema. Apitchatpong os usa, mas não os completa. Assim, os desfunciona e os tornam somente laços, rastros de histórias, sentidos e narrativas que não são completados (links somente possíveis). Assim são os offs (absolutamente deslocados dos objetos sobre os quais são inseridos e que não dão a ver uma interioridade explicativa das personagens. Nesse caso, apontam pra outro tempo, outra história possível: como num exemplo do filme: uma história de um filho abandonado, uma mulher deixada só e um emprego num país estrangeiro. Mas não há mais nada que confirme essa história, não há imagens dela, não há interferência narrativa, nem menção dela nem antes no filme e nem depois. Ela apenas aparece, fugidia, e assim como veio, se vai). Assim são os desenhos, recursos gráficos que são inseridos sobre a tela e falam de momentos e impressões do personagem que não interferem em mais nenhum momento ou aspecto da narrativa. Podem ser momentos passados, futuros, impressões subjetivas que vêm a completar a câmera em terceira pessoa. Eles podem. E essa é a força do jogo com esses recursos narrativos. Ao utilizá-los desse modo pessoal, Apitchatpong fornece possibilidades de história ao invés de narrativas completas.
E é interessante notar como isso vem como filme que continua pra fora da tela, porque dentro dela, na maioria das vezes há somente o discurso silencioso dos corpos. Evoluções de corpos em espaços (a selva, primordialmente) e gestos mínimos, sem significações e de uma superficialidade impressionante. Sem julgamentos: superficialidade pela ausência (engendrada pelo diretor, ressalte-se) de segredos ou motivações psicológicas e narrativas. Sem o fundo que explica a superfície, somos confrontados o tempo todo a nos contentar com a pele. Somente a pele.












Deve-se dizer que tudo que se assemelhe à narrativa (mesmo que tênue), nesse filme, tem a ver com o corpo. A velhice pra um personagem, a beleza e auto-estima pra outra, a doença - e o constante desfazer da pele como signo daquele que não pertence ao lugar e nunca se realiza nele e, por isso, se desfaz - pra outro. E é no corpo e mais anda: um corpo em estado animal, que se libera e libera seus desejos e forças quando mergulha no interior da selva que recai toda a gama de ações dramatúrgicas, toda a partitura de ações das personagens. Estados primários do corpo: comer, beber, respirar, suar, fazer sexo, cuspir, etc. São essas as maiorias das ações que os personagens realizem no filme e é sobre isso que recai tudo: das chaves de interpretação do filme à motivação primordial da câmera.












O estranhamento, essa sensação constante e possivelmente o estado ideal do espectador dos filmes de Apitchatpong, vem desse aparente paradoxo: ao mesmo tempo que não parece haver nada além daquilo que está sendo mostrado, o uso dos paratextos e recursos narrativos de modo não-usual e fragmentário insinua um segredo, algo que nos é vedado como espectador. A totalidade da narrativa, o conforto do sentido é algo que nos parece sorrateiramente sonegado pelo diretor, o tempo todo. E o que estarrece é o modo silencioso com que ele faz isso, sem estardalhaço, filmando corpos em estado bruto e céus azuis e céus quase por chover (ao contrário de um David Lynch, por exemplo, que, para instaurar um segredo, precisa, quase que literalmente, instaurar um circo). É nesse vácuo (de totalidade, de sentido) que parece se construir o filme e nos parece ser indicado como caminho a trafegar. como não estamos acostumados a caminhar com o nada entre as mãos, nos perdemos. será isso ruim, afinal?

Aqui e Acolá: a distância da visão, a visão da distância

“Aqui e Acolá” é um filme da distância, de um buraco. Como o buraco surgiu no lugar em que se queria um caminho (aos outros, à revolução, ao cinema político, ao mundo por via das imagens), dói.
É essa duplicidade, ou antes, essa disparidade, que é a duplicidade diferente que marca o filme. Aqui e acolá. Dois estados, dois momentos distintos, duas idéias distintas. Dois e distintos.
Ainda sob a égide do grupo Dziga Vertov, Godard (junto a Jean Pierre Gorin, outro integrante do grupo) vai à Palestina filmar os guerrilheiros suicidas fedayin (“aqueles que se sacrificam”), com dinheiro da liga árabe, para fazer um filme sobre a revolução palestina, o qual se chamaria “Até a Vitória”. Isso é 1970. Na volta a Paris, o filme não se consegue montar. É abandonado. Quatro anos depois Godard o retoma. Ou melhor, Godard o revê. Revê as imagens do projeto inacabado e o retoma pra fazer dele seu reverso. Ali onde em 1970 se pretendia construir a saudação de uma revolução, em 1974 essas imagens só poderiam trazer no cerne o fracasso de tal projeto. Isso é 1974. Em Paris, não mais na Palestina. Em casa, não mais no estrangeiro. Em 1974 e não mais em 1971. No Aqui e não no Acolá, os sentidos mudam. Revê-se as imagens e elas não mais significam o que significavam.
Diante desse espaçamento de 4 anos, Godard percebe espaçamentos maiores, dentro da imagem, que marcam uma distância de quem filmava pra quem era filmado. Abandona, então, qualquer pretensão de arquitetura e passa a investigar os tijolos da casa caída. Ou seja, passa ao questionamento e problematização das imagens, porque é nelas que está a razão do fracasso do projeto de “Até a Vitória” e é com elas que se pode ir a outro lugar. Nesse sentido Godard parte à criação do reino da soma (a partícula “e”) e tenta redimir as distâncias que compunham aquelas imagens em 1974. Somar, justapor, comparar. Adição filosófica, conceitual. Com a estranha matemática que não pretende ao acerto de cálculo nem à criação de algo uno, harmonioso, que seria produto da soma. O filme, a soma final, a soma máxima, tende mesmo à figura da aberração. Um monstro inconcluso, incompleto, vazado e claudicante. Ele tudo engloba, tudo soma, no seu intuito: problematizar, questionar todo um modo de fazer cinema (produzir imagens), todo o modo de fazer cinema (produzir imagens), os movimentos políticos de então e sua relação com o cinema (as imagens) que estariam – estavam – presentes nas imagens de 1970 e no fracasso do projeto que as concebeu. Assim, são chamadas imagens midiáticas, televisivas, esportivas, figuras históricas como Kissinger, iconografias históricas como as imagens do holocausto, etc. tudo somado com vistas à reflexão, um movimento primordialmente de reflexão sobre as imagens que produziu e sua ruína.

















A voz


É aqui que entra outro processo de adição empreendido pelo filme, que é o meio de se somar esses dois tempos: sobre as imagens de 1970, os sons de 1974.
Principalmente pelo som da narração, a voz off, de Jean-Luc Godard e Anne Marie Miéville. É na narração que está marcado o tempo posterior, o tempo de reconsideração das imagens. É a narração, com seu poder senhorial (deixe-se claro que mesmo assim não inequívoco) que conduz o espectador a repensar aquelas imagens. É ela quem vai o tempo todo desarmando a imagem de 1970 e instaurando a consciência de 1974. É nela que está marcada a todo o tempo a disparidade dos estados: o do Aqui frente ao do acolá.
O filme marca um evidente distanciamento em relação ao que significou o grupo Dziga Vertov. E aqui, na voz, é que se pode ver um dos fortes desvios em relação às diretrizes do grupo: combater a perda da subjetividade (que deveria ser abandona em prol do coletivismo, método de trabalho comunista por excelência) pelo assumir de uma responsabilidade.
A responsabilidade anda de mãos dadas com a culpa. Uma, a culpa, é a dor auto-inflingida em ter cometidos os atos que cometeu, pois estes foram marcados como erros. A responsabilidade é ligar esses atos a uma personalidade.
O filme não traz créditos, mas os referenciais externos nos fazem ver que as duas vozes em off do filme são de Jean-Luc Godard e Anne Marie Miéville. Se é Godard o responsável pelas imagens e erros que “Aqui e acolá” apontam como cometidos, não é o mais importante. Importante é saber que o filme – seus recursos – nos indica a isso.
Há uma disparidade no tom e função dos offs: a voz de Anne Marie Miéville é a consciência instauradora. É quem questiona, quem desarma as ilusões e abre a imagem para um fora (de campo de quadro) que explana o erro. São vários os momentos do filme em que ela vem depois das falas de Godard e vêm a desmontá-la. Como na parte em que ele discorre sobre os fedayins sentados, abusando dos clichês heroicizantes dos guerreiros revolucionários e é interrompido pela voz cortante de Miéville: “porque você não ouve melhor o que eles dizem?” e passa então a uma tradução literal da conversa filmada dos guerrilheiros, cujo tom – simples e telúrico, ligado a questões da terra e da praticidade de uma revolução, o modo de atravessar um rio ou coisas do tipo, desmonta qualquer engrandecimento teórico. É ela quem vaza a imagem e aponta o lado de fora, o que não é posto em cena, mas, evidentemente, pressiona a cena. É ela quem aponta a existência (que depois o filme corrobora, ao fazer surgir o áudio da cena) de Godard dirigindo o depoimento de uma mulher palestina. É ela quem pergunta: “por que vemos sempre quem é colocado em cena, nunca quem coloca?”. Essa voz é firme, cruel e até mesmo implacável.
A voz de Godard, ou melhor, na voz de Godard está plasmada a figura do culpado, o que explica as intenções anteriores, mostra onde errou e nessa sessão de expurgos (mas sempre em tom mais problematizante, argumentativo, filosófico que confessional e psicanalítico) é uma voz que falha. De alguém que falha. E se cala e é cortado sempre pelas interpelações de Miéville. É nesse sentido que a mise-en-scene vocal de Godard é adequada. Uma dicção gaguejante, hesitante, cheia de interrupções e jogos vocais, todos destinados ao não-incorrer na marca da verdade, na firmeza inquestionável. Ele falha e se abre à pergunta, assim.
Na voz, a pessoalidade, a individualidade e humanidade de Godard. No discurso, a responsabilidade. A sua voz é a voz de quem cometeu os erros. A de Anne Marie é a voz de quem interpela e fustiga o autor dos erros. A voz de Godard é falha, porque sai da garganta do culpado, do falível. A de Miéville tem a dureza de quem veio depois e não se conforma com os erros cometidos. A voz de Godard tem muito do Acolá, a de Miéville, a do aqui. Godard muitas vezes fala por 1970 – mesmo que muitas vezes com ironia: sem a “inocência” que guiava “Até a vitória”. A de Miéville fala de 1974. E é Godard, com sua voz, algo de tão íntimo e pessoal, quem tem de romper com o grupo e assumir os erros. Colar os atos e imagens filmados à sua voz.
São as vozes do filme que trazem essa revisão do presente sobre o tempo anterior, são elas que guiam os outros expedientes de linguagem, de soma, de investigação do buraco que o filme empreende.
Há também recursos puramente imagéticos, usando da tecnologia do vídeo, que fazem, literalmente, uma imagem sair de dentro da outra, espécie de soma às avessas em que disseca o produto pra chegar às partículas. Esse recurso é muito utilizado pra “somar” as imagens das mais diversas fontes, como já citado. Kissinger e o holocausto são aproximados por esse meio. Mas as vozes cumprem papel decerto fundamental nesse processo de investigação e mergulho na distância que existiam nas imagens de 1970 que é “Aqui e Acolá”. Elas mesmas trazem em sim buracos e falhas, nessa mise en scene vocal descrita está delineada toda a linha de evolução da visada dessas imagens: de uma falibilidade rumo a um rigor. Não sem esconder uma certa dose de culpa e de arrependimento pelos atos anteriores.
















O arrependimento


E aqui é preciso dizer: Ninguém se arrepende em ficção, só é possível se arrepender em documentário.
O arrependimento é o estado da desilusão, o estado posterior á perda de uma crença. Um estado de destituição acompanhado de uma certa crueldade: a crueldade direcionada a si mesmo, assim o arrependimento não exclui a sensação de culpa.
O estado da desilusão é o estado de substituição da crença anterior por um estado de verdade – na linguagem ordinária chão e realidade estão associados. Assim, todo arrependimento, ao ser o estado de substituição da ilusão por uma realidade que se avoluma de repente crua e dolorosa (porque vem com ela a culpa de ter acreditado em uma mentira), não dispensa a sua cota de dor.
Só o documentário nos restitui tamanho poder de realidade, de nos trazer ao chão. Os seus meios para isso são muitos e vão, certamente, desde configurações de linguagem a paratextos. Mas todos concernentes a um certo estado de cultura: só é verdade porque reconhecemos ali verdade e, evidentemente, a noção de verdade não é desvinculada do todo, ao contrário: é socialmente construída e exercida. Ou, como resumiu bem o próprio Jean-Luc Godard: “O documentário é a prova do crime”. Só quem sabe o que é o crime, sabe o que é a prova.
Portanto, se arrepender-se é ceder a um estado de evidência de uma verdade, só o documentário poderia abrigar tal movimento (psicológico, de autor, de filme) em cinema.


O re


Essa duplicidade de estados que conduz o filme o tempo todo, e que incita à soma, tem uma outra faceta e que é a mais impressionante. Uma espécie de soma, também, mas uma soma sobre si mesmo: o movimento do re. Repensar, reconsiderar, rever. Esse gesto que se realiza duas vezes sobre o mesmo objeto, mas que não é o mesmo. Esse, o gesto principal do filme: rever. E nesse bojo, reconsiderar, repensar, arrepender-se. O que Godard nos propõe é uma vista das imagens, novamente, com mais atenção, para que não se incorra no mesmo erro que ele incorreu. As imagens não são inocentes, e é preciso não se ser inocente para se olhar a elas também. Debruçar-se novamente sobre as imagens para se retirar outro sentido delas, com mais acuidade. Para se repensar a si próprio e o seu projeto de vida e de cinema.
Nesse sentido, quando da volta às imagens retiradas do acolá, é que se torna imperativo um saber ver. Um modo de ver as imagens. Seria “muito simples e muito fácil dividir o mundo em dois”, diz Godard a certa altura do filme e seria realmente muito fácil passar como uma locomotiva impetuosa por cima dos fatos e transmitir uma idéia maniqueísta e fazer dos guerrilheiros heróis marxistas. Mas Godard, ainda remata novamente: “qualquer imagem cotidiana faz parte de um sistema complicado” e nesse sentido, é preciso ver e ouvir as imagens que o mundo nos oferece, ao invés de forçar o mundo a nos dar. Assim, Godard nos conduz ao desfile de erros cometidos no Acolá e mostra suas imagens quase cegas que forçam uma operária a reproduzir um discurso sindical pronto, uma garotinha a declamar um poema revolucionário com mise-en-scene de Robespierre, e o filme nos diz, nos ensina como proceder: para a mulher que repetiu o discurso sindical, se indagar: “o que ela teria dito? E como?”, para a reunião dos fedayins antes da missão que eles sabem suicida, antes de plasmar a imagem de heróicos guerrilheiros marxistas, seria muito conveniente ouvir o que eles diziam. Para isso, seria necessário aprender a língua deles, entrar no mundo deles, ou seja adentrar o acolá. Mas parece que havia uma enorme pressão que sempre os puxava ao aqui,.afinal o filme e o grupo surgiram após o fracasso das revoluções de 1968 e da decisão de que era necessário lutar politicamente contra o fracasso dos ideais da geração. Mas o que teria a Palestina a ver com isso? Alguma coisa possivelmente, mas não a mesma coisa, decerto. Acolá é acolá, outros jogos, outras regras, outras pessoas, outras necessidades. Aqui é aqui. Mas Godard mesmo diz: “quisemos fazer a revolução lá onde ela não acontecia, ao invés de aqui, onde ela era necessária”. Ir Acolá para entender e curar a ânsia do aqui. Impostura que causa culpa e desalento. Como resolver? Repensar as imagens, repensar o gesto político. Repensar o gesto cinematográfico. Afinal, se há que se ter uma diferença entre filmador e filmado, será que ela precisa ser tão grande como a diferença entre quem vai morrer e quem não vai morrer? Pois assim era: “um filme com os atores em perigo de morte”, uma cartela escreve. Aqui o lugar da segurança e acolá o lugar da morte. Não, assim não se vai a lugar algum.
Repensar o gesto produtor de imagens pra não produzir imagens que conduzam a julgamentos falsos, fáceis, que dividam o mundo em dois, ao invés de mergulhar na complexidade dos fatos que envolve cada gesto cotidiano. E repensar as imagens, aprender a olhá-las e notar as suas sutilezas. Principalmente perceber quem está por fora do quadro, mas pressiona quem está dentro.















O dedo indicador


Aqui e acolá é um filme chave. Sintetiza um momento particular da história do cinema moderno e põe em jogo todo um projeto estético e político de uma geração. Assume a culpa do erro, mas não se põe a derramar as lágrimas psicanalíticas. Põe-se a estudar os movimentos que conduziram ao erro e retirar desse exame (que de modo algum exclui dor e certamente inclui as próprias entranhas no trajeto) um modo de postura, uma conduta: aprender a ver. Ver o mundo que se desenrola (ele próprio uma imagem, mas aprender a ver a imagem do mundo significa deixar-se em silencio pra que ela surja, não forçar ver uma imagem pré-determinada a todo momento) e ver as imagens retiradas do mundo. E nesse movimento Godard nos conduz, dialeticamente, comparando, somando: as imagens de 1970 revistas por 1974 e essa revisão conduzida pela pedagogia do off que ensina, guia o modo correto de ver as imagens que desfilam pela tela. “assim” repete o off de Godard várias vezes diante de uma imagem, como a nos indicar o modo correto de vê-las. Sim, não mais fazendo dos outros, do acolá, um mero espelho das nossas preocupações do aqui? Sim, assim.

À guisa de prefácio

Bater a porta antes de entrar na própria casa. Antes de ser mera cortesia, afabilidade de quem sabe que o trabalho é conjunto: teremos de nos ajudar, a mão e a página.
Assim, antes de entrar limpar os pés e conservar as mãos vazias, para, quem sabe, poder enchê-las.