Em geral, a câmera nas transmissões esportivas se destinam somente ao movimento, ao seguir e acompanhar dos corpos (carros, no caso): a câmera se desloca pelo deslocar do seu objeto. Mas esse deslocar está associado à idéia de uma totalidade: acompanha o deslocar dos corpos (carros) em função de um espaço. O espaço total é a pista e há inúmeros paratextos (gráfico, narração, comentários, etc.) e, principalmente, planos, imagens, que nos restituem à totalidade do espaço onde se dá o evento (pista) continuamente.
Planos como derivações, aéreas, gerais têm como função inserir o corpo no todo, o carro na pista (por esse jogo do espaço e do recorte do corpo no espaço é que poderia “discordar” de Serge Daney que considerava a partida de tênis a transmissão esportiva por excelência e afirmar isso da transmissão de futebol ou de fórmula 1 – corridas em circuito oval são outra coisa. Daney não gostava de futebol – pecado - talvez por isso afirmasse isso. Diria que no jogo do tênis, como no de vôlei, em que se mostram por poucos planos, porque um ponto de vista único dá conta do espaço todo, tudo está no plano e os corpos e o jogo e o futuro – o ponto, a cortada, a devolução, estão já dentro do plano. Planos que contém o futuro, ou seja toda a narrativa, dentro de si são planos extremamente contemporâneos. Partidas de tênis ou de vôlei são transmitidas à moda do cinema contemporâneo, futebol ou fórmula 1 à moda do cinema clássico. como toda prototipia é clássica, o futebol, mais uma vez, vence.) de volta às corridas de automóvel, em tais planos geralmente parte-se do espaço para o carro (zoom), mas em Cingapura ocorreu o inverso.
Pelo poder de atração do exotismo, houve uma pressão de fascínio que levava a câmera (e toda a transmissão: os paratextos todos: estatísticas, gráficos, narração, comentários, etc.) para o lado de fora da pista, para a cidade e o país e mais especificamente, para aquilo que serviria de metonímia do país: a impressionante cordilheira de arranha-céus ao redor do circuito.
A panorâmica abandonava a pista e focava, fascinada, o skyline espinhoso de Cingapura.
Poder de fascínio que foi devidamente guiado e o plano revela o fascínio ocidental, estrangeiro por aquela paisagem, pois o GP foi organizado desde o começo em função do ocidente. Mais especificamente Europa (o fato de ter ocorrido à noite foi exigência da organização da fórmula 1 para que a corrida ocorresse em horário palatável ao fuso europeu: para os europeus verem corrida à tarde, que ela ocorresse de noite em Cingapura). O plano, a panorâmica, surpreendia, mas surpreendia a quem o plano era endereçado: Europeus e ocidentais que ignoravam tal configuração de paisagem.


Poder de fascínio devidamente guiado: os organizadores fizeram do plano (e das imagens em que o GP se transformaria) uma propaganda da opulência megalopólica de Cingapura. Fizeram da ignorância e do desconhecido um espaço de encanto e absurdamento que incitam à adesão: as imagens e a panorâmica não escondem: o ocidente achou aquilo belo, belo demais.
Ao apontar pra fora, o plano (se pode ver isso também nas outras imagens do evento, o espetáculo guiado do fascínio e da grandiloqüência persegue toda tomada do evento) mostrou o retrato do novo rosto da metrópole contemporânea: Asiática e digital, rebrilhante. Não mais o império do concreto e do ferro armado americanos e do século XX. Agora o rebrilho laminado e luminoso das superfícies metálicas e sem atrito: leveza contemporânea e asiática.
Essas imagens marcam um destrono de Nova York como símbolo da metrópole capitalista contemporânea por excelência. O mistério, o desconhecido, a idéia de novo que incita o lançar-se, que conjuga-se mesmo ao espírito empreendedor e rompedor do capital se comunga melhor com as cidades asiáticas. Elas representam ainda um terreno fértil pra construção, elas ainda incitam à imaginação. Elas ainda não foram suficientemente narradas. Nova York já foi filmada demais, fotografada demais, cantada demais. Cada esquina sua parece quintal do mundo. E o mistério, diga-se, é mercadoria das mais valiosas.

Das imagens produzidas sobre o GP, uma das mais intrigantes, das mais eloqüentes é uma produzida de forma amadora (termo que ainda, mas só ainda, faz algum sentido) por um espectador do GP. Parece que com seu celular, o espectador, provavelmente um local, ou seja, alguém para o que aquilo ali, a cidade, as luzes, é coisa corriqueira, conhecida. Diante da inexistência da pressão de fora, ele se dirige somente ao dentro. E diante da ausência da possibilidade de recursos e de linguagem audiovisual que dê conta do espaço (mais câmera, os planos certos pra dar a impressão de continuidade, etc.), ele fica no que tem: a visão da faixa estreita de espaço que tem à sua frente. E ele se perde, porque é tudo muito rápido e tudo o que ele pode fazer é seguir os corpos que passam, mas eles passam rápido demais e ele não tem futuro, sua imagem não aponta pra lugar algum, apenas fica no que lhe passa seja quem for.
Ressalte-se ainda outro uso clínico de outro recurso visual: o direcionamento do olhar pela luz. O circuito foi separado da cidade (embora seja um circuito de rua) pela extrema luminosidade de que teve de se investir (tomadas aéreas justificavam isso) e a iluminação destacadora se estendeu ao fora da pista, fora de campo, fora de quadro, ao se iluminar cuidadosamente os prédios em redor e conservar suas janelas acesas: ante a noite é o novo estágio político e econômico da Ásia – e Cingapura – que se devia destacar.
Um comentário:
Mais impressionante do que uma F-1 deslizando à noite são as linhas horizontais ilumindadas pelas letrinhas [cuidadosamente posicionadas] por esse gajo 5 estrelas chamado Affonso Uchoa. Dá-lhe.
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